Números complexos

A unidade imaginária, forma algébrica e trigonométrica, plano de Argand-Gauss e as operações.

Autor: Rafael Souza Leitura: 11 min Atualizado em: 2026-09
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Objetivos da aula

  • Entender por que os números complexos precisaram ser inventados.
  • Operar na forma algébrica: somar, multiplicar, conjugar e dividir.
  • Localizar um complexo no plano de Argand-Gauss e achar módulo e argumento.
  • Usar a forma trigonométrica e a fórmula de De Moivre para potências e raízes.

Por que os complexos existem

A equação x2 + 1 = 0 não tem solução real: nenhum número real elevado ao quadrado dá negativo. Em vez de parar aí, a matemática criou um número novo que resolve o problema por definição.

A unidade imaginária i é definida pela propriedade:

i2 = −1

Com ela, x2 + 1 = 0 passa a ter as soluções x = ±i, e x2 + 4 = 0 passa a ter x = ±2i.

Um número complexo na forma algébrica se escreve:

z = a + bi

  • a — a parte real, um número real;
  • b — a parte imaginária, também um número real;
  • i — a unidade imaginária.

Quando b = 0, o complexo é um número real comum — ou seja, os reais estão dentro dos complexos. Quando a = 0 e b ≠ 0, ele é chamado de imaginário puro.

Potências de i

As potências de i se repetem de quatro em quatro:

i1 = i · i2 = −1 · i3 = −i · i4 = 1

Depois disso o ciclo recomeça: i5 = i4 · i = i, e assim por diante.

O truque do resto

Para calcular in com n grande, divida n por 4 e olhe só o resto. Resto 0 dá 1, resto 1 dá i, resto 2 dá −1, resto 3 dá −i.

Exemplo: i2026. Como 2026 ÷ 4 deixa resto 2, então i2026 = −1.

Adição, subtração e multiplicação

Na adição e na subtração, partes reais com partes reais e partes imaginárias com partes imaginárias:

(a + bi) + (c + di) = (a + c) + (b + d)i

(a + bi) − (c + di) = (a − c) + (b − d)i

Por exemplo, (3 + 2i) + (1 − 4i) = 4 − 2i, e (3 + 2i) − (1 − 4i) = 2 + 6i.

Na multiplicação, distribua normalmente e troque i2 por −1:

(a + bi)(c + di) = (ac − bd) + (ad + bc)i

Exemplo. (2 + 3i)(1 + 4i):

= (2 · 1 − 3 · 4) + (2 · 4 + 3 · 1)i = (2 − 12) + (8 + 3)i = −10 + 11i

Não é preciso decorar a fórmula: distribuir os quatro produtos e lembrar de i2 = −1 dá o mesmo resultado com menos risco de erro.

Conjugado e módulo

O conjugado de z = a + bi troca o sinal da parte imaginária:

z̄ = a − bi

Geometricamente, é o reflexo de z em relação ao eixo real. A propriedade que faz dele uma ferramenta:

z · z̄ = a2 + b2

O produto de um complexo pelo seu conjugado é sempre um número real e não negativo. É isso que permite tirar o i do denominador numa divisão.

O módulo de z é a distância do ponto z até a origem:

|z| = √(a2 + b2)

Para z = 3 + 4i: = 3 − 4i e |z| = √(9 + 16) = √25 = 5.

Divisão

Para dividir, multiplique numerador e denominador pelo conjugado do denominador. O denominador vira real e a conta acaba:

(a + bi) ÷ (c + di) = [(ac + bd) + (bc − ad)i] ÷ (c2 + d2)

5.1 Exemplo resolvido

Divida 1 + i por 1 − i.

O conjugado do denominador é 1 + i:

(1 + i)(1 + i) ÷ [(1 − i)(1 + i)] = (1 + 2i + i2) ÷ (1 + 1)

= (1 + 2i − 1) ÷ 2 = 2i ÷ 2 = i

O plano de Argand-Gauss

Todo complexo z = a + bi corresponde ao ponto (a, b) num plano em que o eixo horizontal guarda a parte real e o vertical, a parte imaginária. Esse é o plano de Argand-Gauss, ou plano complexo.

Re Im O z = 3 + 4i a = 3 b = 4 r = 5 θ
Figura 1. O número 3 + 4i no plano de Argand-Gauss. O módulo r é o comprimento do segmento até a origem, e o argumento θ é o ângulo que ele faz com o eixo real positivo.

Essa representação transforma operação algébrica em movimento geométrico: somar complexos é somar vetores, e multiplicar é girar e esticar.

Forma trigonométrica

Em vez de localizar z por coordenadas, localize-o por distância e ângulo:

z = r · (cos θ + i · sen θ)

  • r = |z| = √(a2 + b2) — o módulo;
  • θ — o argumento, o ângulo com o eixo real positivo.

As conversões entre as duas formas:

a = r · cos θ e b = r · sen θ

tg θ = b ÷ a

Cuidado com o quadrante

A calculadora devolve o arco-tangente sempre entre −90° e 90°, ou seja, no primeiro ou no quarto quadrante. Sempre confira em que quadrante o ponto realmente está e corrija somando 180° quando a parte real for negativa.

Para z = −2 + 3i, por exemplo, o ponto está no segundo quadrante: o argumento é 180° − arctg(3/2), e não arctg(−3/2).

7.1 Exemplo resolvido

Escreva z = 1 + i na forma trigonométrica.

r = √(12 + 12) = √2

Como tg θ = 1/1 = 1 e o ponto (1, 1) está no primeiro quadrante, θ = π/4. Logo:

z = √2 · (cos π/4 + i · sen π/4)

7.2 A notação cis

Escrever "cos θ + i sen θ" toda vez é cansativo, então abrevia-se:

cis θ = cos θ + i · sen θ

e a forma trigonométrica vira simplesmente z = r · cis θ.

Multiplicação, divisão e a fórmula de De Moivre

Na forma trigonométrica, as operações ficam quase triviais — e é por isso que ela existe:

OperaçãoMóduloArgumento
Multiplicarmultiplicasoma
Dividirdividesubtrai
Elevar a neleva a nmultiplica por n

r1cis θ1 · r2cis θ2 = r1r2 · cis(θ1 + θ2)

r1cis θ1 ÷ r2cis θ2 = (r1 ÷ r2) · cis(θ1 − θ2)

A terceira linha da tabela é a fórmula de De Moivre:

zn = rn · cis(n · θ)

É ela que torna viável calcular algo como (1 + i)20 sem multiplicar vinte vezes.

8.1 Exemplo resolvido

Calcule (1 + i)4.

Já vimos que 1 + i = √2 · cis(π/4). Aplicando De Moivre:

(1 + i)4 = (√2)4 · cis(4 · π/4) = 4 · cis(π)

Como cis(π) = cos π + i sen π = −1 + 0i = −1:

(1 + i)4 = −4

8.2 Raízes

De Moivre também dá as raízes. As n raízes n-ésimas de z = r cis θ são:

ⁿ√z = ⁿ√r · cis[(θ + 2kπ) ÷ n], com k = 0, 1, …, n − 1

São exatamente n raízes, todas com o mesmo módulo nr e igualmente espaçadas — elas formam os vértices de um polígono regular de n lados centrado na origem.

Exemplo. As raízes quadradas de z = 4i. O ponto (0, 4) está sobre o eixo imaginário positivo, então r = 4 e θ = π/2. As duas raízes têm módulo √4 = 2:

k = 0: 2 · cis(π/4) · k = 1: 2 · cis(5π/4)

Na forma algébrica, elas são √2(1 + i) e −√2(1 + i) — opostas, como era de esperar de duas raízes quadradas.

Equações do segundo grau com raízes complexas

Quando o discriminante é negativo, a equação não tem raiz real — mas tem duas raízes complexas. Basta escrever √(−k) como ik.

9.1 Exemplo resolvido

Resolva z2 + 4z + 13 = 0.

Δ = 42 − 4 · 1 · 13 = 16 − 52 = −36

Como √(−36) = 6i:

z = (−4 ± 6i) ÷ 2 = −2 + 3i ou −2 − 3i

Repare que as duas raízes são conjugadas uma da outra. Isso sempre acontece quando os coeficientes da equação são reais.

Exercícios

  1. Calcule a soma e a diferença de z1 = 3 + 4i e z2 = 5 − 2i.

  2. Encontre o produto de z1 = 2 + 3i e z2 = 4 + i. O que acontece com o módulo e com o argumento do resultado?

  3. Calcule o quociente z1 ÷ z2, com z1 = 7 + 6i e z2 = 2 − i. Dê a resposta na forma a + bi.

  4. Dado z = 5 + 12i, determine o conjugado e o módulo, e explique o que o conjugado representa no plano complexo.

  5. Resolva z1 · z2z3, onde z1 = 2 + i, z2 = 3 − 2i e z3 = 4i.

  6. Determine o módulo e o argumento de z1 = 1 + i, z2 = −2 + 3i e z3 = −1 − 2i, atentando ao quadrante de cada um.

  7. Determine a forma trigonométrica de z = 1 − √3i, especificando o módulo r e o argumento θ.

  8. Converta z = 4 · (cos π/3 + i sen π/3) para a forma a + bi.

  9. Encontre as raízes quadradas de z = 9i usando a forma trigonométrica.

  10. Seja z = 3 + 4i. Determine z2 e z3, e explique o que acontece com o módulo e o argumento a cada potência.

  11. Expresse z = 2 · (cos π/4 + i sen π/4) usando a notação cis θ.

  12. Calcule o produto de z1 = 3 · cis(π/6) e z2 = 2 · cis(π/4), deixando a resposta na forma trigonométrica.

  13. Divida z1 = 4 · cis(π/3) por z2 = 2 · cis(π/6), deixando a resposta na forma trigonométrica.

  14. Use a fórmula de De Moivre para calcular (1 + i)5, dando a resposta na forma a + bi.

  15. Dado z = 2 · cis(2π/3), encontre z4 usando a notação cis θ.

  16. Resolva z2 + 4z + 13 = 0 no conjunto dos números complexos.

  17. Encontre todas as raízes cúbicas de z = 8, na forma trigonométrica, e descreva como elas se distribuem no plano complexo.

  18. Resolva o sistema z1 + z2 = 4 + 2i e z1z2 = 2 − 4i.

  19. Um triângulo no plano complexo tem vértices em z1 = 0, z2 = 1 e z3 = 1 + i. Classifique o triângulo, justificando com os módulos das diferenças.

  20. Desafio. Calcule a soma dos cossenos dos ângulos 5°, 77°, 149°, 221° e 293° usando a notação cis θ. Dica: os ângulos formam uma progressão aritmética, e cis θ · cis α = cis(θ + α).

Ver gabarito
  1. Soma: (3 + 5) + (4 − 2)i = 8 + 2i

    Diferença: (3 − 5) + (4 + 2)i = −2 + 6i

    No plano complexo, é a soma e a subtração dos vetores correspondentes.

  2. (2 + 3i)(4 + i) = 8 + 2i + 12i + 3i2 = 8 + 14i − 3 = 5 + 14i

    O módulo do produto é o produto dos módulos, e o argumento é a soma dos argumentos.

  3. Multiplique numerador e denominador pelo conjugado 2 + i:

    (7 + 6i)(2 + i) = 14 + 7i + 12i + 6i2 = 8 + 19i

    (2 − i)(2 + i) = 4 + 1 = 5

    (8 + 19i) ÷ 5 = 8/5 + (19/5)i

  4. Conjugado: 5 − 12i.

    Módulo: |z| = √(25 + 144) = √169 = 13.

    O conjugado é o reflexo de z em relação ao eixo real.

  5. (2 + i)(3 − 2i) = 6 − 4i + 3i − 2i2 = 6 − i + 2 = 8 − i

    Subtraindo z3 = 4i:

    8 − i − 4i = 8 − 5i

  6. z1 = 1 + i — primeiro quadrante: |z1| = √2 e θ = π/4.

    z2 = −2 + 3isegundo quadrante: |z2| = √13 e θ = π − arctg(3/2) ≈ 2,16 rad. Responder arctg(−3/2) é o erro clássico: esse ângulo cai no quarto quadrante.

    z3 = −1 − 2i — terceiro quadrante: |z3| = √5 e θ = π + arctg(2).

  7. r = √(1 + 3) = 2.

    tg θ = −√3/1, e o ponto (1, −√3) está no quarto quadrante, logo θ = −π/3.

    z = 2 · cis(−π/3) = 2 · (cos(−π/3) + i sen(−π/3))

  8. cos π/3 = 1/2 e sen π/3 = √3/2, então:

    z = 4 · (1/2 + i√3/2) = 2 + 2√3i

  9. O ponto (0, 9) está no eixo imaginário positivo: r = 9 e θ = π/2.

    As raízes têm módulo √9 = 3 e argumentos π/4 e π/4 + π:

    3 · cis(π/4) e 3 · cis(5π/4)

    São opostas, e estão sobre a circunferência de raio 3.

  10. z2 = (3 + 4i)2 = 9 + 24i − 16 = −7 + 24i

    z3 = (−7 + 24i)(3 + 4i) = −21 − 28i + 72i − 96 = −117 + 44i

    A cada potência o módulo é elevado ao expoente (5, 25, 125) e o argumento é multiplicado por ele.

  11. z = 2 · cis(π/4)

  12. Multiplicar soma os argumentos e multiplica os módulos:

    3 · 2 = 6 e π/6 + π/4 = 2π/12 + 3π/12 = 5π/12

    z1z2 = 6 · cis(5π/12)

  13. Dividir divide os módulos e subtrai os argumentos:

    4 ÷ 2 = 2 e π/3 − π/6 = π/6

    z1 ÷ z2 = 2 · cis(π/6)

  14. 1 + i = √2 · cis(π/4). Por De Moivre:

    (1 + i)5 = (√2)5 · cis(5π/4) = 4√2 · cis(5π/4)

    Como cis(5π/4) = −√2/2 − i√2/2:

    4√2 · (−√2/2 − i√2/2) = −4 − 4i

    Conferindo por caminho independente: (1 + i)2 = 2i, então (1 + i)4 = (2i)2 = −4 e (1 + i)5 = −4(1 + i). Confere.

  15. z4 = 24 · cis(4 · 2π/3) = 16 · cis(8π/3)

    Como 8π/3 − 2π = 2π/3, o argumento se reduz:

    z4 = 16 · cis(2π/3)

  16. Δ = 16 − 52 = −36, e √(−36) = 6i:

    z = (−4 ± 6i) ÷ 2 = −2 + 3i ou −2 − 3i

    As duas raízes são conjugadas, como sempre acontece com coeficientes reais.

  17. 8 = 8 · cis(0), então as raízes têm módulo 3√8 = 2 e argumentos (0 + 2kπ)/3:

    2 · cis(0), 2 · cis(2π/3) e 2 · cis(4π/3)

    Estão igualmente espaçadas, de 120° em 120°, sobre a circunferência de raio 2 — formam um triângulo equilátero.

  18. Somando as duas equações: 2z1 = 6 − 2i, logo z1 = 3 − i.

    Substituindo: z2 = (4 + 2i) − (3 − i) = 1 + 3i.

  19. As distâncias entre os vértices são os módulos das diferenças:

    d12 = |1 − 0| = 1

    d13 = |1 + i| = √2

    d23 = |(1 + i) − 1| = |i| = 1

    Como d12 = d23, o triângulo é isósceles. E como 12 + 12 = (√2)2, ele é também retângulo.

  20. A soma dos cossenos é a parte real da soma dos cis:

    cis(5°) + cis(77°) + cis(149°) + cis(221°) + cis(293°)

    Os ângulos formam uma PA de razão 72°, então dá para colocar cis(5°) em evidência:

    cis(5°) · [1 + cis(72°) + cis(144°) + cis(216°) + cis(288°)]

    O colchete é a soma das cinco raízes quintas da unidade — uma PG de razão cis(72°) com cis(360°) = 1. A soma das n raízes n-ésimas da unidade é zero (elas são os vértices de um polígono regular centrado na origem, e se cancelam aos pares de simetria).

    Logo o produto todo é 0, e a soma dos cossenos é 0.

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