Logaritmos

Definição e condições de existência do logaritmo, propriedades operatórias, mudança de base, logaritmo natural, o gráfico da função logarítmica e equações e inequações, com verificação de raiz.

Autor: Rafael Souza Leitura: 11 min Atualizado em: 2026-09
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Objetivos da aula

  • Calcular logaritmos pela definição e verificar quando eles existem.
  • Aplicar as propriedades operatórias e a mudança de base.
  • Reconhecer o gráfico, o domínio e a imagem da função logarítmica.
  • Resolver equações e inequações logarítmicas, descartando raiz estranha.

O que é um logaritmo

O logaritmo responde a uma pergunta só: a que expoente preciso elevar a base para chegar neste número? É a operação que desfaz a exponencial.

logb(a) = x ⟺ bx = a

  • b — a base, com b > 0 e b ≠ 1;
  • a — o logaritmando, com a > 0;
  • x — o logaritmo, que é o expoente procurado. Não tem unidade: é um número puro, mesmo quando a tem unidade.

As duas escritas dizem a mesma coisa. Quando travar numa questão, passe da forma logarítmica para a exponencial — quase sempre o problema se resolve ali.

Exemplo. log2(32) pergunta: 2 elevado a quanto dá 32? Como 25 = 32, o logaritmo é 5.

Quando a base é 10, ela costuma ser omitida: log(1000) significa log10(1000) = 3. É o logaritmo decimal, o da calculadora.

Condições de existência

As três restrições da definição não são decoração — cada uma barra um caso impossível, e é delas que sai metade das questões do assunto.

Por que cada condição existe

  • a > 0. Como bx é sempre positivo, nenhum expoente faz bx dar −4 ou 0. Logo não existe logaritmo de número negativo nem de zero.
  • b > 0. Com base negativa a potência salta de sinal (−2)1 = −2, (−2)2 = 4, e expoentes fracionários nem existem.
  • b ≠ 1. Como 1x = 1 para todo x, a base 1 só alcançaria o número 1 — e aí com infinitos expoentes ao mesmo tempo.

Em questão com incógnita na base, as três valem simultaneamente. Para que exista logx−2(10 − x) é preciso x − 2 > 0, x − 2 ≠ 1 e 10 − x > 0 — ou seja, 2 < x < 10 com x ≠ 3.

Os que você calcula de cabeça

Saem direto da definição, e aparecem no meio de contas maiores:

ExpressãoValorPor quê
logb(1)0b0 = 1 para qualquer base
logb(b)1b1 = b
logb(bn)no expoente já está escrito
blogb(a)auma operação desfaz a outra

A última linha é a que mais economiza tempo: 5log5(7) = 7 sem nenhuma conta. Elevar à base e tirar o logaritmo na mesma base se cancelam, como raiz e quadrado.

As propriedades operatórias

São três, e todas vêm das propriedades de potência — logaritmo é expoente, e expoente se soma quando a potência se multiplica.

logb(m · n) = logb(m) + logb(n)

logb(m ÷ n) = logb(m) − logb(n)

logb(mn) = n · logb(m)

  • m, n — números positivos, pela condição de existência;
  • b — a base, a mesma nas três parcelas. Propriedade só vale entre logaritmos de bases iguais.

A terceira serve para raiz também, porque raiz é potência fracionária: log(√m) = ½ · log(m).

Os três erros que mais derrubam

  • log(m + n) não é log m + log n. A propriedade vale para produto, não para soma. Não existe regra para o logaritmo de uma soma.
  • log m ÷ log n não é log(m ÷ n). O quociente vira subtração; divisão de dois logaritmos é outra coisa — é mudança de base.
  • (log m)2 não é log(m2). No segundo caso o expoente está dentro, e sai multiplicando; no primeiro está fora, e não sai.

4.1 Exemplo resolvido

Sabendo que log 2 = 0,30 e log 3 = 0,48, calcule log 12 e log 5.

Quebre o logaritmando em fatores que você já tem:

log 12 = log(22 · 3) = 2 · log 2 + log 3 = 0,60 + 0,48 = 1,08

Para o 5, o truque é escrevê-lo como 10 ÷ 2, porque log 10 = 1:

log 5 = log(10 ÷ 2) = 1 − 0,30 = 0,70

Esse par — log 2 e log 5 somando 1 — aparece em quase toda questão que dá log 2 e pede outra coisa.

Mudança de base

A calculadora só tem base 10 e base e. Para qualquer outra:

logb(a) = logc(a) ÷ logc(b)

  • c — a nova base, qualquer uma que sirva, desde que c > 0 e c ≠ 1.

Numerador é o logaritmando, denominador é a base antiga. Trocar a ordem é o deslize mais comum, e o resultado sai invertido.

Ela também serve para somar logaritmos de bases diferentes, que sem isso não se combinam. E dela sai um caso útil:

logb(a) = 1 ÷ loga(b)

5.1 Exemplo resolvido

Calcule log8(32).

Nem precisa de calculadora: 8 e 32 são potências de 2, então mude para a base 2.

log8(32) = log2(32) ÷ log2(8) = 5 ÷ 3 = 5/3

Conferindo: 85/3 = (23)5/3 = 25 = 32. Fecha.

Logaritmo natural e cologaritmo

O logaritmo natural é o de base e ≈ 2,718, o número de Euler. Escreve-se ln:

ln(a) = loge(a)

Ele não tem propriedade nenhuma a mais: é um logaritmo comum, de base estranha. Aparece sempre que o crescimento ou o decaimento é contínuo, escrito como ekt — população, meia-vida, juros contínuos, resfriamento.

Dois valores que a prova costuma fornecer: ln 2 ≈ 0,693 e ln 10 ≈ 2,303.

O cologaritmo é só o oposto do logaritmo:

cologb(a) = − logb(a)

Existe por causa de uma aplicação: o pH é o cologaritmo da concentração de íons H⁺, e sem o sinal de menos ele seria sempre negativo.

A função logarítmica

f(x) = logb(x), com b > 0 e b ≠ 1

O domínio já está decidido pela condição de existência: D = (0, +∞). E como todo expoente real é permitido, a imagem é ℝ — exatamente o contrário da exponencial, que tem domínio ℝ e imagem (0, +∞). Isso não é coincidência: uma é a inversa da outra.

0 1 2 3 −1 −2 2 4 8 x y y = log₂ x y = log½ x
Figura 1. Base 2 (linha cheia, crescente) e base ½ (tracejada, decrescente). As duas cortam o eixo horizontal no mesmo ponto marcado, x = 1, porque logb(1) = 0 em qualquer base. O eixo vertical é assíntota: a curva se aproxima dele sem nunca tocá-lo, já que x = 0 está fora do domínio.

Três leituras que resolvem questão de gráfico sem conta:

  • b > 1 — função crescente;
  • 0 < b < 1 — função decrescente;
  • o gráfico nunca toca nem cruza o eixo vertical, e não existe à esquerda dele.

Repare como a curva cresce devagar: de x = 4 para x = 8 o logaritmo sobe só 1, embora o x tenha dobrado. É essa lentidão que faz o logaritmo ser usado para comprimir escalas gigantes, como se vê no fim da aula.

Equações logarítmicas

A estratégia é sempre a mesma: reduzir os dois lados a um logaritmo só, na mesma base, e então tirar os logaritmos. Duas formas aparecem:

  • logb(algo) = número — passe para a forma exponencial;
  • logb(algo) = logb(outro algo) — iguale os logaritmandos.

Verificar não é opcional

Aplicar as propriedades pode criar solução que não serve. Em log x + log(x − 3), o domínio exige x > 3; mas ao juntar em log[x(x − 3)], o produto fica positivo também para x negativo — e a equação passa a aceitar uma raiz que a original proibia.

Por isso: ache o domínio antes de resolver, e descarte no fim toda raiz que cair fora dele. É a raiz estranha, e é a pegadinha mais frequente do assunto.

8.1 Exemplo resolvido

Resolva log2(x + 1) + log2(x − 1) = 3.

Domínio primeiro: x + 1 > 0 e x − 1 > 0, ou seja x > 1.

log2[(x + 1)(x − 1)] = 3 ⟹ x2 − 1 = 23 = 8

x2 = 9 ⟹ x = 3 ou x = −3

O −3 está fora do domínio e vai fora. Sobra x = 3.

Conferindo na equação original: log2(4) + log2(2) = 2 + 1 = 3. Fecha.

Inequações logarítmicas

Tudo igual às equações, com um passo a mais que decide a questão inteira:

A base manda no sinal

  • b > 1 — a função é crescente, e a desigualdade mantém o sentido: logb(m) > logb(n) ⟹ m > n.
  • 0 < b < 1 — a função é decrescente, e a desigualdade inverte: logb(m) > logb(n) ⟹ m < n.

Olhe para a base antes de tirar os logaritmos. Quem esquece a inversão erra a questão inteira, mesmo com toda a álgebra certa.

E a resposta final é sempre a interseção entre o que a desigualdade deu e o domínio — nunca só o primeiro.

9.1 Exemplo resolvido

Resolva log1/2(x − 3) ≥ −2.

Domínio: x − 3 > 0, ou seja x > 3.

Escreva o −2 como logaritmo da mesma base: (½)−2 = 4, então −2 = log1/2(4).

log1/2(x − 3) ≥ log1/2(4)

Base entre 0 e 1, logo inverte:

x − 3 ≤ 4 ⟹ x ≤ 7

Cruzando com o domínio: 3 < x ≤ 7.

Onde o logaritmo aparece

Sempre que uma grandeza varia por fatores de 10 ou de 2, e não por somas. O logaritmo comprime essa escala para números que cabem num gráfico.

  • pH — pH = −log[H⁺], com a concentração em mol/L. Cada unidade de pH a menos significa concentração dez vezes maior: um refrigerante de pH 3 é cem vezes mais ácido que um café de pH 5.
  • Escala Richter — de 6 para 8 não é "um terço a mais": é cem vezes mais amplitude, e cerca de mil vezes mais energia liberada.
  • Decibel — o ouvido responde a razões, não a diferenças, e a escala acompanha: +10 dB é dez vezes mais intensidade.
  • Meia-vida e datação por carbono-14 — o decaimento é contínuo, então o tempo sai por ln.

Em todas, a pergunta de prova é a mesma: quantas vezes uma medida é maior que a outra. Diferença na escala logarítmica vira razão na grandeza original.

Exercícios

  1. Calcule, pela definição: log2(32), log3(1/9), log5(1) e log(0,001).

  2. Determine os valores de x para os quais existe o logaritmo logx−2(10 − x).

  3. Sabendo que log 2 = 0,30 e log 3 = 0,48, calcule log 12, log 1,5 e log √6.

  4. Calcule log8(32) sem usar calculadora.

  5. Resolva a equação log3(2x − 1) = 2.

  6. Determine o domínio da função f(x) = log2(x2 − 5x + 6).

  7. Resolva a equação log x + log(x − 3) = 1.

  8. Resolva a inequação log1/3(x − 1) > 2.

  9. Resolva a equação log2(x) + log4(x) = 6.

  10. Um isótopo radioativo decai segundo Q(t) = Q0 · e−0,05t, com t em anos. Determine a meia-vida do isótopo e o tempo necessário para que reste apenas 10% da quantidade inicial. Use ln 2 = 0,693 e ln 10 = 2,303.

Ver gabarito
  1. Em cada caso, pergunte "a base elevada a quanto dá o logaritmando?".

    log2(32): 25 = 32, logo 5.

    log3(1/9): 3−2 = 1/9, logo −2. Logaritmando entre 0 e 1 dá logaritmo negativo — mas o logaritmando em si continua positivo, então o logaritmo existe.

    log5(1) = 0, porque 50 = 1.

    log(0,001): a base omitida é 10, e 10−3 = 0,001, logo −3.

  2. As três condições de existência valem ao mesmo tempo.

    Logaritmando positivo: 10 − x > 0 ⟹ x < 10.

    Base positiva: x − 2 > 0 ⟹ x > 2.

    Base diferente de 1: x − 2 ≠ 1 ⟹ x ≠ 3.

    Interseção: 2 < x < 10, com x ≠ 3.

    A condição esquecida com mais frequência é a terceira, justamente por parecer detalhe.

  3. Quebre cada logaritmando em fatores 2 e 3.

    log 12 = log(22 · 3) = 2 · 0,30 + 0,48 = 0,60 + 0,48 = 1,08

    log 1,5 = log(3 ÷ 2) = 0,48 − 0,30 = 0,18

    log √6 = ½ · log 6 = ½ · (log 2 + log 3) = ½ · 0,78 = 0,39

    Conferindo a ordem de grandeza: 12 está entre 10 e 100, então log 12 tem de ficar entre 1 e 2 — e 1,08 fica. Já 1,5 e √6 ≈ 2,45 estão entre 1 e 10, então os logaritmos ficam entre 0 e 1. Todos batem.

  4. Tanto 8 quanto 32 são potências de 2, então mude para a base 2:

    log8(32) = log2(32) ÷ log2(8) = 5 ÷ 3 = 5/3, ou aproximadamente 1,67.

    Conferindo: 85/3 = (23)5/3 = 25 = 32. Fecha.

  5. Domínio: 2x − 1 > 0 ⟹ x > ½.

    Passando para a forma exponencial: 2x − 1 = 32 = 9.

    2x = 10 ⟹ x = 5, que respeita o domínio.

    Conferindo: log3(9) = 2. Fecha.

  6. É preciso que o logaritmando seja positivo: x2 − 5x + 6 > 0.

    Raízes: Δ = 25 − 24 = 1, logo x = (5 ± 1) ÷ 2, ou seja 2 e 3.

    Como a = 1 > 0, a parábola abre para cima e fica positiva fora do intervalo das raízes.

    D = {x ∈ ℝ | x < 2 ou x > 3}

    Atenção: é "fora das raízes", não "entre elas" — e nem 2 nem 3 entram, porque ali o logaritmando zera.

  7. Domínio antes de tudo: x > 0 e x − 3 > 0, o que exige x > 3.

    Juntando pelo produto: log[x(x − 3)] = 1, e como a base é 10:

    x2 − 3x = 101 = 10 ⟹ x2 − 3x − 10 = 0.

    Δ = 9 + 40 = 49, e x = (3 ± 7) ÷ 2, dando x = 5 e x = −2.

    O −2 está fora do domínio: log(−2) não existe. É raiz estranha, criada ao juntar os dois logaritmos, e vai fora.

    x = 5

    Conferindo: log 5 + log 2 = log 10 = 1. Fecha.

  8. Domínio: x − 1 > 0 ⟹ x > 1.

    Escreva o 2 como logaritmo da mesma base: (1/3)2 = 1/9, então 2 = log1/3(1/9).

    log1/3(x − 1) > log1/3(1/9)

    A base 1/3 está entre 0 e 1, então a função é decrescente e a desigualdade inverte:

    x − 1 < 1/9 ⟹ x < 10/9.

    Cruzando com o domínio: 1 < x < 10/9.

    Conferindo com x = 1,05, que está dentro: x − 1 = 0,05, e log1/3(0,05) ≈ 2,7, que é de fato maior que 2. Já x = 1,2, fora do intervalo, dá log1/3(0,2) ≈ 1,5, que não serve. O intervalo está certo.

    Quem esquece de inverter responde x > 10/9 e erra a questão inteira, mesmo com o resto correto.

  9. Domínio: x > 0.

    As bases são diferentes, então não dá para somar direto. Leve a segunda para a base 2 por mudança de base:

    log4(x) = log2(x) ÷ log2(4) = log2(x) ÷ 2.

    Chamando y = log2(x):

    y + y/2 = 6 ⟹ (3/2)y = 6 ⟹ y = 4.

    Voltando: log2(x) = 4 ⟹ x = 24 = 16.

    Conferindo: log2(16) = 4 e log4(16) = 2, e 4 + 2 = 6. Fecha.

    Não pare no y: a questão pede x, e 4 é o logaritmo, não a resposta.

  10. Meia-vida. É o tempo para sobrar metade, ou seja Q = Q0/2. O Q0 cancela:

    e−0,05t = 1/2

    Aplicando ln nos dois lados: −0,05t = ln(1/2) = −ln 2 = −0,693.

    t = 0,693 ÷ 0,05 = 13,86 anos, cerca de 13 anos e 10 meses.

    Até restar 10%. Agora Q = 0,1 · Q0:

    e−0,05t = 0,1 = 1/10 ⟹ −0,05t = −ln 10 = −2,303.

    t = 2,303 ÷ 0,05 = 46,06 anos.

    Conferindo pela ordem de grandeza: 46,06 ÷ 13,86 ≈ 3,3 meias-vidas. Três meias-vidas deixariam 1/8 = 12,5%, e uma fração a mais leva a 10%. Coerente.

    Repare que a resposta não depende de Q0: a meia-vida é a mesma para 1 g ou para 1 tonelada.

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