Objetivos da aula
- Calcular logaritmos pela definição e verificar quando eles existem.
- Aplicar as propriedades operatórias e a mudança de base.
- Reconhecer o gráfico, o domínio e a imagem da função logarítmica.
- Resolver equações e inequações logarítmicas, descartando raiz estranha.
O que é um logaritmo
O logaritmo responde a uma pergunta só: a que expoente preciso elevar a base para chegar neste número? É a operação que desfaz a exponencial.
logb(a) = x ⟺ bx = a
- b — a base, com b > 0 e b ≠ 1;
- a — o logaritmando, com a > 0;
- x — o logaritmo, que é o expoente procurado. Não tem unidade: é um número puro, mesmo quando a tem unidade.
As duas escritas dizem a mesma coisa. Quando travar numa questão, passe da forma logarítmica para a exponencial — quase sempre o problema se resolve ali.
Exemplo. log2(32) pergunta: 2 elevado a quanto dá 32? Como 25 = 32, o logaritmo é 5.
Quando a base é 10, ela costuma ser omitida: log(1000) significa log10(1000) = 3. É o logaritmo decimal, o da calculadora.
Condições de existência
As três restrições da definição não são decoração — cada uma barra um caso impossível, e é delas que sai metade das questões do assunto.
Por que cada condição existe
- a > 0. Como bx é sempre positivo, nenhum expoente faz bx dar −4 ou 0. Logo não existe logaritmo de número negativo nem de zero.
- b > 0. Com base negativa a potência salta de sinal (−2)1 = −2, (−2)2 = 4, e expoentes fracionários nem existem.
- b ≠ 1. Como 1x = 1 para todo x, a base 1 só alcançaria o número 1 — e aí com infinitos expoentes ao mesmo tempo.
Em questão com incógnita na base, as três valem simultaneamente. Para que exista logx−2(10 − x) é preciso x − 2 > 0, x − 2 ≠ 1 e 10 − x > 0 — ou seja, 2 < x < 10 com x ≠ 3.
Os que você calcula de cabeça
Saem direto da definição, e aparecem no meio de contas maiores:
| Expressão | Valor | Por quê |
|---|---|---|
| logb(1) | 0 | b0 = 1 para qualquer base |
| logb(b) | 1 | b1 = b |
| logb(bn) | n | o expoente já está escrito |
| blogb(a) | a | uma operação desfaz a outra |
A última linha é a que mais economiza tempo: 5log5(7) = 7 sem nenhuma conta. Elevar à base e tirar o logaritmo na mesma base se cancelam, como raiz e quadrado.
As propriedades operatórias
São três, e todas vêm das propriedades de potência — logaritmo é expoente, e expoente se soma quando a potência se multiplica.
logb(m · n) = logb(m) + logb(n)
logb(m ÷ n) = logb(m) − logb(n)
logb(mn) = n · logb(m)
- m, n — números positivos, pela condição de existência;
- b — a base, a mesma nas três parcelas. Propriedade só vale entre logaritmos de bases iguais.
A terceira serve para raiz também, porque raiz é potência fracionária: log(√m) = ½ · log(m).
Os três erros que mais derrubam
- log(m + n) não é log m + log n. A propriedade vale para produto, não para soma. Não existe regra para o logaritmo de uma soma.
- log m ÷ log n não é log(m ÷ n). O quociente vira subtração; divisão de dois logaritmos é outra coisa — é mudança de base.
- (log m)2 não é log(m2). No segundo caso o expoente está dentro, e sai multiplicando; no primeiro está fora, e não sai.
4.1 Exemplo resolvido
Sabendo que log 2 = 0,30 e log 3 = 0,48, calcule log 12 e log 5.
Quebre o logaritmando em fatores que você já tem:
log 12 = log(22 · 3) = 2 · log 2 + log 3 = 0,60 + 0,48 = 1,08
Para o 5, o truque é escrevê-lo como 10 ÷ 2, porque log 10 = 1:
log 5 = log(10 ÷ 2) = 1 − 0,30 = 0,70
Esse par — log 2 e log 5 somando 1 — aparece em quase toda questão que dá log 2 e pede outra coisa.
Mudança de base
A calculadora só tem base 10 e base e. Para qualquer outra:
logb(a) = logc(a) ÷ logc(b)
- c — a nova base, qualquer uma que sirva, desde que c > 0 e c ≠ 1.
Numerador é o logaritmando, denominador é a base antiga. Trocar a ordem é o deslize mais comum, e o resultado sai invertido.
Ela também serve para somar logaritmos de bases diferentes, que sem isso não se combinam. E dela sai um caso útil:
logb(a) = 1 ÷ loga(b)
5.1 Exemplo resolvido
Calcule log8(32).
Nem precisa de calculadora: 8 e 32 são potências de 2, então mude para a base 2.
log8(32) = log2(32) ÷ log2(8) = 5 ÷ 3 = 5/3
Conferindo: 85/3 = (23)5/3 = 25 = 32. Fecha.
Logaritmo natural e cologaritmo
O logaritmo natural é o de base e ≈ 2,718, o número de Euler. Escreve-se ln:
ln(a) = loge(a)
Ele não tem propriedade nenhuma a mais: é um logaritmo comum, de base estranha. Aparece sempre que o crescimento ou o decaimento é contínuo, escrito como ekt — população, meia-vida, juros contínuos, resfriamento.
Dois valores que a prova costuma fornecer: ln 2 ≈ 0,693 e ln 10 ≈ 2,303.
O cologaritmo é só o oposto do logaritmo:
cologb(a) = − logb(a)
Existe por causa de uma aplicação: o pH é o cologaritmo da concentração de íons H⁺, e sem o sinal de menos ele seria sempre negativo.
A função logarítmica
f(x) = logb(x), com b > 0 e b ≠ 1
O domínio já está decidido pela condição de existência: D = (0, +∞). E como todo expoente real é permitido, a imagem é ℝ — exatamente o contrário da exponencial, que tem domínio ℝ e imagem (0, +∞). Isso não é coincidência: uma é a inversa da outra.
Três leituras que resolvem questão de gráfico sem conta:
- b > 1 — função crescente;
- 0 < b < 1 — função decrescente;
- o gráfico nunca toca nem cruza o eixo vertical, e não existe à esquerda dele.
Repare como a curva cresce devagar: de x = 4 para x = 8 o logaritmo sobe só 1, embora o x tenha dobrado. É essa lentidão que faz o logaritmo ser usado para comprimir escalas gigantes, como se vê no fim da aula.
Equações logarítmicas
A estratégia é sempre a mesma: reduzir os dois lados a um logaritmo só, na mesma base, e então tirar os logaritmos. Duas formas aparecem:
- logb(algo) = número — passe para a forma exponencial;
- logb(algo) = logb(outro algo) — iguale os logaritmandos.
Verificar não é opcional
Aplicar as propriedades pode criar solução que não serve. Em log x + log(x − 3), o domínio exige x > 3; mas ao juntar em log[x(x − 3)], o produto fica positivo também para x negativo — e a equação passa a aceitar uma raiz que a original proibia.
Por isso: ache o domínio antes de resolver, e descarte no fim toda raiz que cair fora dele. É a raiz estranha, e é a pegadinha mais frequente do assunto.
8.1 Exemplo resolvido
Resolva log2(x + 1) + log2(x − 1) = 3.
Domínio primeiro: x + 1 > 0 e x − 1 > 0, ou seja x > 1.
log2[(x + 1)(x − 1)] = 3 ⟹ x2 − 1 = 23 = 8
x2 = 9 ⟹ x = 3 ou x = −3
O −3 está fora do domínio e vai fora. Sobra x = 3.
Conferindo na equação original: log2(4) + log2(2) = 2 + 1 = 3. Fecha.
Inequações logarítmicas
Tudo igual às equações, com um passo a mais que decide a questão inteira:
A base manda no sinal
- b > 1 — a função é crescente, e a desigualdade mantém o sentido: logb(m) > logb(n) ⟹ m > n.
- 0 < b < 1 — a função é decrescente, e a desigualdade inverte: logb(m) > logb(n) ⟹ m < n.
Olhe para a base antes de tirar os logaritmos. Quem esquece a inversão erra a questão inteira, mesmo com toda a álgebra certa.
E a resposta final é sempre a interseção entre o que a desigualdade deu e o domínio — nunca só o primeiro.
9.1 Exemplo resolvido
Resolva log1/2(x − 3) ≥ −2.
Domínio: x − 3 > 0, ou seja x > 3.
Escreva o −2 como logaritmo da mesma base: (½)−2 = 4, então −2 = log1/2(4).
log1/2(x − 3) ≥ log1/2(4)
Base entre 0 e 1, logo inverte:
x − 3 ≤ 4 ⟹ x ≤ 7
Cruzando com o domínio: 3 < x ≤ 7.
Onde o logaritmo aparece
Sempre que uma grandeza varia por fatores de 10 ou de 2, e não por somas. O logaritmo comprime essa escala para números que cabem num gráfico.
- pH — pH = −log[H⁺], com a concentração em mol/L. Cada unidade de pH a menos significa concentração dez vezes maior: um refrigerante de pH 3 é cem vezes mais ácido que um café de pH 5.
- Escala Richter — de 6 para 8 não é "um terço a mais": é cem vezes mais amplitude, e cerca de mil vezes mais energia liberada.
- Decibel — o ouvido responde a razões, não a diferenças, e a escala acompanha: +10 dB é dez vezes mais intensidade.
- Meia-vida e datação por carbono-14 — o decaimento é contínuo, então o tempo sai por ln.
Em todas, a pergunta de prova é a mesma: quantas vezes uma medida é maior que a outra. Diferença na escala logarítmica vira razão na grandeza original.
Exercícios
Calcule, pela definição: log2(32), log3(1/9), log5(1) e log(0,001).
Determine os valores de x para os quais existe o logaritmo logx−2(10 − x).
Sabendo que log 2 = 0,30 e log 3 = 0,48, calcule log 12, log 1,5 e log √6.
Calcule log8(32) sem usar calculadora.
Resolva a equação log3(2x − 1) = 2.
Determine o domínio da função f(x) = log2(x2 − 5x + 6).
Resolva a equação log x + log(x − 3) = 1.
Resolva a inequação log1/3(x − 1) > 2.
Resolva a equação log2(x) + log4(x) = 6.
Um isótopo radioativo decai segundo Q(t) = Q0 · e−0,05t, com t em anos. Determine a meia-vida do isótopo e o tempo necessário para que reste apenas 10% da quantidade inicial. Use ln 2 = 0,693 e ln 10 = 2,303.