Objetivos da aula
- Compor duas funções e entender por que a ordem importa.
- Determinar o domínio de uma função composta.
- Decompor uma função dada em duas mais simples.
- Achar a inversa algebricamente e reconhecê-la no gráfico.
Composição de funções
Compor duas funções é ligá-las em série: a saída da primeira vira a entrada da segunda. É o que acontece toda vez que um preço passa por um desconto e depois por um imposto, ou que uma temperatura vai de Celsius para Fahrenheit e daí para Kelvin.
(g ∘ f)(x) = g(f(x))
- f — a função aplicada primeiro, a de dentro;
- g — a função aplicada depois, a de fora;
- x — a entrada, que precisa servir para f.
O símbolo ∘ lê-se "bola". A armadilha está aqui: em g ∘ f, quem age primeiro é f, a que está escrita por último. A leitura correta é de dentro para fora, como no parêntese de g(f(x)).
1.1 Exemplo resolvido
Com f(x) = x + 2 e g(x) = x2, calcule (g ∘ f)(3) e (f ∘ g)(3).
(g ∘ f)(3) = g(f(3)) = g(5) = 52 = 25
(f ∘ g)(3) = f(g(3)) = f(9) = 9 + 2 = 11
Resultados diferentes, e não por acaso: a composição não é comutativa. Somar 2 e depois elevar ao quadrado não é elevar ao quadrado e depois somar 2 — assim como vestir meia e depois sapato não dá no mesmo que vestir sapato e depois meia.
Para obter a fórmula geral, substitua a expressão inteira no lugar do x:
(g ∘ f)(x) = g(x + 2) = (x + 2)2 = x2 + 4x + 4
(f ∘ g)(x) = f(x2) = x2 + 2
O erro mais comum nessa passagem é esquecer o parêntese: em g(x + 2) o bloco inteiro é elevado ao quadrado, não só o x. Confira sempre com um número: para x = 3, a primeira fórmula dá 9 + 12 + 4 = 25, que é o valor já calculado.
O domínio da composta
Este é o ponto que separa quem decorou de quem entendeu. Para que g(f(x)) exista, duas coisas precisam acontecer ao mesmo tempo:
As duas condições
- x tem que estar no domínio de f — senão não existe nem a primeira saída;
- f(x) tem que estar no domínio de g — a saída de f é a entrada de g, e precisa ser aceita por ela.
Quem olha só para a fórmula final perde a primeira condição. Tome f(x) = √x e g(x) = x2. A composta é
(g ∘ f)(x) = (√x)2 = x
e a fórmula final, x, parece valer em todo lugar. Mas o domínio é [0, +∞), e não ℝ: a raiz do caminho proibiu os negativos, e o fato de ela sumir na simplificação não devolve nada. O domínio se decide antes de simplificar.
2.1 Exemplo resolvido
Com f(x) = x − 4 e g(x) = 1 ÷ x, determine (g ∘ f)(x) e o seu domínio.
(g ∘ f)(x) = 1 ÷ (x − 4)
f aceita qualquer real, então a primeira condição não barra nada. Já g exige entrada diferente de zero, ou seja f(x) ≠ 0, o que dá x ≠ 4.
D = ℝ − {4}
Decompor: o caminho inverso
A prova costuma pedir o contrário: dada uma função, escrever quais duas a formam. Serve para simplificar conta, e é pré-requisito de derivada mais adiante.
A regra prática: o que está dentro do radical, do parêntese ou do denominador é a função de dentro; o que se faz com esse bloco é a de fora.
| h(x) | de dentro: f | de fora: g |
|---|---|---|
| √(3x + 1) | 3x + 1 | √x |
| (x − 4)3 | x − 4 | x3 |
| 1 ÷ (x2 + 1) | x2 + 1 | 1 ÷ x |
Em todos, h = g ∘ f. A conferência é imediata: substitua f dentro de g e veja se volta o h original. E a decomposição não é única — √(3x + 1) também sai de f = 3x e g = √(x + 1). A questão costuma pedir a mais simples.
O que é a função inversa
A função inversa desfaz o que a função fez. Se f leva 2 em 5, então f−1 leva 5 de volta em 2:
f(a) = b ⟺ f−1(b) = a
Ou seja, cada par (a, b) de f vira o par (b, a) de f−1: as coordenadas trocam de lugar. Essa única frase explica tudo o que vem depois, inclusive o gráfico.
Dois avisos sobre a notação
- f−1(x) não é 1 ÷ f(x). Aqui o −1 não é expoente, é símbolo de inversa. Para f(x) = 2x, a inversa é x ÷ 2, e não 1 ÷ (2x). São funções diferentes.
- Inversa não é oposta nem recíproca. Ela não muda o sinal nem vira a fração de cabeça para baixo: ela percorre o caminho de volta.
4.1 Nem toda função tem inversa
Só função bijetora tem inversa que também é função, e os dois motivos são concretos:
- se f não é injetora, dois valores de entrada dão a mesma saída — e a volta ficaria ambígua. Em f(x) = x2, tanto 3 quanto −3 dão 9: perguntar "de onde veio o 9?" não tem resposta única;
- se f não é sobrejetora, há elementos do contradomínio que ninguém atinge — e a volta ficaria indefinida ali.
No gráfico há um teste rápido: se alguma reta horizontal corta a curva em mais de um ponto, a função não é injetora e não tem inversa naquele domínio.
Como achar a inversa
São três passos mecânicos:
- escreva y = f(x);
- troque x por y e y por x;
- isole o y. O que sobrou é f−1(x).
O passo 2 é a tradução algébrica da troca de coordenadas da seção anterior. Quem pula a troca acaba isolando a variável errada e devolve a própria f.
5.1 Caso do 1º grau
Ache a inversa de f(x) = 2x − 1.
y = 2x − 1 ⟹ x = 2y − 1 ⟹ 2y = x + 1
f−1(x) = (x + 1) ÷ 2
A conferência obrigatória é compor as duas: se a inversa está certa, elas se cancelam e sobra o próprio x.
f(f−1(x)) = 2 · [(x + 1) ÷ 2] − 1 = x + 1 − 1 = x ✔
Essa checagem custa uma linha e pega qualquer erro de sinal.
5.2 Caso da função racional
Ache a inversa de f(x) = (3x − 2) ÷ (x + 1).
Depois da troca, o y aparece em dois lugares. A saída é multiplicar em cruz e juntar os termos com y de um lado só:
x = (3y − 2) ÷ (y + 1) ⟹ x(y + 1) = 3y − 2
xy + x = 3y − 2 ⟹ xy − 3y = −2 − x ⟹ y(x − 3) = −(x + 2)
f−1(x) = (x + 2) ÷ (3 − x)
Conferindo com um número: f(0) = −2 ÷ 1 = −2, e f−1(−2) = 0 ÷ 5 = 0. Voltou ao ponto de partida.
Domínio e imagem trocam de lugar
Se os pares (a, b) viram (b, a), então o que era entrada vira saída:
D(f−1) = Im(f) · Im(f−1) = D(f)
É daqui que sai boa parte das questões, porque permite achar a imagem de f — que costuma dar trabalho — olhando para o domínio da inversa, que é fácil.
No exemplo 5.2: f tem D = ℝ − {−1}, pelo denominador. A inversa (x + 2) ÷ (3 − x) tem domínio ℝ − {3}. Logo a imagem de f é ℝ − {3} — o valor 3 nunca é atingido, e é justamente a assíntota horizontal da curva.
O gráfico: simetria em relação à bissetriz
Trocar as coordenadas de um ponto é, geometricamente, refleti-lo na reta y = x. Então os gráficos de f e de f−1 são simétricos em relação à bissetriz.
Três consequências que rendem questão:
- dobrar a folha na bissetriz faz um gráfico cair exatamente sobre o outro;
- onde f corta o eixo y, a inversa corta o eixo x — e vice-versa;
- se as duas curvas se cruzam, o ponto de encontro costuma estar sobre a bissetriz, onde f(x) = x. Resolver essa equação simples muitas vezes substitui todo o resto da conta.
Um par que você já conhece: a exponencial e o logaritmo. Uma tem domínio ℝ e imagem (0, +∞); a outra tem domínio (0, +∞) e imagem ℝ. Os gráficos das duas são reflexos um do outro na bissetriz, e é por isso que os domínios aparecem trocados.
Restringir o domínio para poder inverter
Quando a função não é injetora, não se muda a fórmula: corta-se o domínio, até sobrar um pedaço em que ela seja injetora.
O caso clássico é f(x) = x2. Em ℝ ela não tem inversa, porque 3 e −3 vão para o mesmo 9. Mas em [0, +∞) nenhum valor se repete, e a imagem também é [0, +∞):
f: [0, +∞) → [0, +∞), f−1(x) = √x
Se a restrição fosse o outro lado, (−∞, 0], a inversa seria f−1(x) = −√x. A inversa depende da restrição escolhida — por isso o enunciado sempre declara o domínio, e ignorá-lo é perder a questão.
É também a razão de √9 valer 3 e não ±3: o símbolo de raiz é a inversa do quadrado restrito aos não negativos, e uma função devolve um valor só. O ± aparece na resolução de x2 = 9, que é outra coisa — ali se procuram todas as soluções, não a imagem de uma função.
A mesma ideia reaparece em trigonometria: o seno se repete de 2π em 2π, e só depois de restringi-lo a um intervalo é que faz sentido falar em arco-seno.
Exercícios
Dadas f(x) = 2x + 3 e g(x) = x2 − 1, calcule (g ∘ f)(2) e (f ∘ g)(2).
Com f(x) = 3x − 1 e g(x) = x + 4, determine as fórmulas de (f ∘ g)(x) e (g ∘ f)(x).
Sejam f(x) = x2 + 1 e g(x) = 2x − 5. Obtenha (f ∘ g)(x) e (g ∘ f)(x), e verifique em x = 1 que as duas são diferentes.
Escreva cada função abaixo como g ∘ f, indicando f e g: h(x) = √(3x + 1) e p(x) = 1 ÷ (x2 + 1).
Dadas f(x) = 1 ÷ x e g(x) = √x, determine (g ∘ f)(x) e o seu domínio.
Determine a inversa de f(x) = 3x − 6 e confira o resultado compondo as duas funções.
Seja f(x) = (2x + 1) ÷ (x − 3). Determine f−1(x), o domínio e a imagem de f e o domínio e a imagem da inversa.
Considere f(x) = √(x − 2), com x ≥ 2. Determine f−1(x) e dê domínio e imagem das duas funções.
Com f(x) = √(x − 1) e g(x) = 1 ÷ (x − 2), determine (g ∘ f)(x) e o seu domínio.
A função f(x) = x2 − 4x + 3 não é injetora em ℝ. Determine uma restrição de domínio que a torne bijetora, indique a imagem correspondente e obtenha a inversa nessa restrição.
Sabendo que f(x) = 2x − 1 e que (f ∘ g)(x) = 6x + 3, determine g(x). Em seguida calcule (g ∘ f)(x) e compare.
Sejam f(x) = 2x + 1 e g(x) = x − 3. Determine (f ∘ g)−1(x) e verifique se ela coincide com (g−1 ∘ f−1)(x) ou com (f−1 ∘ g−1)(x).