Leis de Newton

As três leis de Newton, o conceito de força resultante e como montar o diagrama de forças de um corpo.

Autor: Rafael Souza Leitura: 9 min Atualizado em: 2026-09
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Objetivos da aula

  • Entender o que é força resultante e por que ela é o que importa.
  • Enunciar as três leis de Newton sem trocar uma pela outra.
  • Reconhecer as forças que aparecem nos problemas: peso, normal, atrito e elástica.
  • Montar o diagrama de forças de um corpo e tirar a aceleração dele.

Força e força resultante

A dinâmica é o ramo da mecânica que estuda as causas do movimento. Onde a cinemática descrevia como um corpo se move, aqui a pergunta é por quê — e a resposta, em quase todo caso, é uma força.

Força é uma grandeza vetorial: tem intensidade, direção e sentido. A unidade no Sistema Internacional é o newton (N).

Um corpo quase nunca sofre uma força só. O que determina o movimento não é nenhuma força isolada, mas a força resultante: a soma vetorial de todas as forças que agem sobre ele.

FR = F1 + F2 + F3 + …

Onde FR é a força resultante, em newtons (N), e F1, F2, … são as forças que atuam no corpo, em newtons (N). A soma é vetorial: forças de sentidos opostos se subtraem.

Guarde esta frase, porque ela é o resumo das três leis: o que muda o movimento de um corpo é a força resultante sobre ele, não a quantidade de forças que agem nele. Um livro parado na mesa tem duas forças fortes agindo — e resultante zero.

Primeira lei: a inércia

A primeira lei de Newton, também chamada de lei da inércia, diz que um corpo mantém seu estado de movimento enquanto a força resultante sobre ele for nula:

Se FR = 0, então v = constante

Repare no que isso inclui: velocidade constante abrange tanto o corpo parado (v = 0) quanto o corpo em movimento retilíneo uniforme. Do ponto de vista da dinâmica, os dois casos são o mesmo.

A inércia é justamente essa resistência que todo corpo tem a mudar de velocidade, e ela é medida pela massa. Quanto maior a massa, mais difícil alterar o movimento — por isso é mais fácil empurrar um carrinho de supermercado vazio do que cheio.

2.1 Onde esta lei costuma ser mal entendida

É comum ler que um corpo se mantém em movimento "até que uma força aja sobre ele". Isso não está certo: forças agem o tempo todo sobre praticamente tudo. O que precisa ser zero é a resultante.

Um carro em linha reta a 80 km/h numa estrada tem motor empurrando, atrito freando, peso puxando para baixo e normal empurrando para cima — quatro forças bem grandes. Ele anda em velocidade constante porque as quatro se cancelam, não porque estejam ausentes.

O exemplo do dia a dia: quando um ônibus freia, você é jogado para a frente. Não existe força nenhuma te empurrando para a frente — é o seu corpo mantendo a velocidade que já tinha, enquanto o ônibus desacelera embaixo de você. Isso é inércia.

Segunda lei: força, massa e aceleração

Quando a resultante não é nula, o corpo acelera. A segunda lei diz exatamente quanto:

FR = m · a

  • FR — a força resultante, em newtons (N);
  • m — a massa do corpo, em quilogramas (kg);
  • a — a aceleração, em metros por segundo ao quadrado (m/s²).

A aceleração tem sempre a mesma direção e o mesmo sentido da força resultante. E a relação é dupla: dobrando a força, dobra a aceleração; dobrando a massa para a mesma força, a aceleração cai pela metade.

0 1 2 3 4 5 0 5 10 força resultante (N) aceleração (m/s²) m = 2 kg
Figura 1. Para um corpo de massa fixa, aceleração e força resultante são diretamente proporcionais. A inclinação da reta vale 1 ÷ m: quanto mais pesado o corpo, mais deitada fica a reta.

3.1 Exemplo resolvido

Uma caixa de 4 kg é empurrada sobre o chão por uma força horizontal de 20 N. O atrito com o chão vale 8 N. Qual a aceleração da caixa?

Primeiro a resultante, no sentido do movimento. O atrito se opõe, então entra subtraindo:

FR = 20 − 8 = 12 N

Agora a segunda lei:

a = FR ÷ m = 12 ÷ 4 = 3 m/s²

O erro clássico aqui é dividir os 20 N pela massa e esquecer o atrito. A segunda lei só funciona com a resultante.

Terceira lei: ação e reação

A terceira lei afirma que, se um corpo A exerce uma força sobre um corpo B, então B exerce sobre A uma força de mesma intensidade, mesma direção e sentido oposto:

FA→B = − FB→A

A B força de B sobre A força de A sobre B mesma intensidade, sentidos opostos, corpos diferentes
Figura 2. O par ação–reação. As duas forças são sempre iguais em módulo, mesmo quando um dos corpos é muito maior que o outro.

4.1 O detalhe que decide a questão

Ação e reação nunca se cancelam, porque estão aplicadas em corpos diferentes. Só faz sentido somar forças para achar uma resultante quando elas agem no mesmo corpo — e esse nunca é o caso de um par ação–reação.

Se elas se cancelassem, nada no universo poderia acelerar. É por isso que um foguete funciona no vácuo: ele expulsa gases para trás (ação) e os gases empurram o foguete para a frente (reação). A força que acelera o foguete está aplicada no foguete; a outra, no gás.

E quando você empurra uma parede, a parede empurra você com a mesma força. Você não sai voando porque, sobre você, ainda agem o atrito do chão e o seu peso — outra conta, outro corpo.

As forças que aparecem nos problemas

Quase todo exercício de mecânica do ensino médio se resolve com quatro forças:

ForçaQuem exerceDireção
Peso (P)a Terra, sobre todo corpo com massavertical, para baixo
Normal (N)a superfície de apoioperpendicular à superfície
Atrito (Fat)a superfície de contatocontrária ao movimento (ou à tendência dele)
Elástica (Fe)uma mola deformadacontrária à deformação

O peso é a única que você calcula direto:

P = m · g

Onde m é a massa em quilogramas (kg) e g é a aceleração da gravidade, em metros por segundo ao quadrado (m/s²) — cerca de 9,8 m/s² na superfície da Terra, quase sempre arredondada para 10 m/s² em prova. Um corpo de 5 kg tem peso de 50 N.

A força elástica obedece à lei de Hooke, Fe = k · x, em que k é a constante da mola (N/m) e x é a deformação em relação ao comprimento natural (m).

Cuidado com um par que parece ação e reação e não é: o peso de um livro sobre a mesa e a normal que a mesa faz nele. As duas agem no mesmo corpo (o livro) — são forças que se cancelam, e é por isso que o livro fica parado. A reação ao peso do livro é a atração que o livro exerce sobre a Terra; a reação à normal é a força que o livro faz na mesa.

Como montar o diagrama de forças

O diagrama de forças (ou diagrama de corpo livre) é o desenho em que você isola um corpo e representa só as forças que agem nele. É o passo que transforma um enunciado confuso numa conta de uma linha. A receita:

  1. Escolha um corpo. Um só. Se o problema tem dois blocos, faça dois diagramas.
  2. Desenhe o peso, sempre para baixo.
  3. Desenhe a normal, se houver superfície de apoio, perpendicular a ela.
  4. Desenhe as forças de contato: quem puxa, quem empurra, o atrito.
  5. Escolha um sentido positivo e some as forças em cada direção, com sinal.
  6. Aplique FR = m · a em cada direção separadamente.

Numa superfície horizontal, o movimento acontece na horizontal e a vertical fica em equilíbrio: N = P. Isso permite calcular a normal e, com ela, o atrito.

6.1 Exemplo resolvido

Um bloco de 10 kg está em repouso sobre o chão. Uma pessoa o puxa na horizontal com 40 N, e o atrito vale 15 N. Adote g = 10 m/s². Determine a normal e a aceleração.

Na vertical não há movimento, então a resultante é nula:

N = P = m · g = 10 · 10 = 100 N

Na horizontal, tomando o sentido do puxão como positivo:

FR = 40 − 15 = 25 N

a = 25 ÷ 10 = 2,5 m/s²

Duas direções, duas contas independentes. É sempre assim.

Onde isso aparece fora da prova

  • Cinto de segurança e airbag — existem por causa da primeira lei: numa batida o carro para, o passageiro não.
  • Projeto de veículos — a segunda lei dá a força que o motor precisa entregar para uma dada massa acelerar como se quer.
  • Foguetes e turbinas — funcionam pela terceira lei, expelindo massa para trás.
  • Estruturas e edifícios — são calculados para que a resultante das forças (peso, vento, carga) continue nula.

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