Transferência

Como transferir de uma faculdade brasileira ou de um community college americano, quantos créditos sobrevivem e quanto custa o processo.

Quem já começou a graduação pode se transferir para uma universidade americana em vez de recomeçar do zero. Só que existem dois caminhos com esse mesmo nome, e eles são muito diferentes entre si: transferir de um community college americano é um processo desenhado para funcionar; transferir de uma faculdade brasileira é um processo improvisado, caso a caso.

A diferença em uma frase

Do community college americano para a universidade de quatro anos existem acordos formais que dizem, disciplina por disciplina, o que vale — e em alguns estados até garantem a vaga.

Da faculdade brasileira para a americana não existe acordo nenhum. Uma empresa terceirizada avalia seu histórico, cobra por isso, e boa parte dos seus créditos acaba virando "disciplina eletiva genérica".

Quão difícil é

Mais difícil que entrar como calouro, e por um motivo simples: o número de vagas é pequeno. Uma universidade abre vaga de transferência para repor quem saiu, e isso é sempre menos que uma turma inteira de primeiro ano.

Os números mostram a distância entre os extremos: Harvard admite menos de 1% dos candidatos a transferência, enquanto públicas como UC Berkeley e UCLA ficam em torno de 20% — justamente porque foram desenhadas para receber transferidos dos community colleges da Califórnia.

Para quem vem do Brasil, some a isso a barreira financeira: bolsa para aluno transferido é bem mais escassa do que para calouro. Muitas faculdades que cobrem toda a necessidade de quem entra no primeiro ano não fazem o mesmo com quem chega depois. Antes de investir no processo, confirme isso na página de financial aid de cada universidade.

Onde se candidatar

  • Common App for Transfer — a principal plataforma, parecida com a versão para calouros.
  • UC Transfer Admission Planner — sistema próprio das universidades da Califórnia, voltado a quem vem de community college.
  • Algumas universidades mantêm formulário próprio. Confira sempre no site.

O que você vai precisar entregar

  1. Histórico da faculdade atual — é o documento mais importante. A média nas disciplinas que você já cursou pesa mais que qualquer outra coisa.
  2. Histórico do ensino médio — quase sempre continua sendo exigido.
  3. Redação de transferência — diferente da redação de calouro. Ela responde a duas perguntas: por que você quer sair de onde está, e por que aquela universidade específica atende melhor ao que você quer fazer. Resposta vaga aqui derruba candidatura boa.
  4. Cartas de recomendação — de professores da faculdade, em geral.
  5. Prova de inglês — TOEFL, IELTS ou equivalente, a menos que você já tenha cursado um número mínimo de créditos em inglês numa instituição americana.
  6. Documentos financeiros — os mesmos formulários que os calouros preenchem, quando você pede auxílio.
  7. Avaliação de credenciais — só para quem vem de fora dos Estados Unidos. É o passo mais lento e o mais caro; está explicado adiante.

A maior parte das universidades exige um mínimo de créditos já concluídos — normalmente entre 24 e 60, o equivalente a um ou dois anos. Algumas aceitam transferência só para o segundo ano, outras só para o terceiro.

O caminho do community college (2+2)

Community college é uma faculdade pública americana de dois anos, que entrega um diploma chamado associate degree. A estratégia conhecida como 2+2 é fazer os dois primeiros anos ali e transferir para uma universidade de quatro anos para concluir o curso — e o diploma final é o da segunda universidade, sem menção a onde você começou.

Por que funciona tão melhor que o caminho brasileiro:

  • Custa muito menos. Um community college para estrangeiro fica na faixa de US$ 25 mil a US$ 26 mil por ano com moradia, contra US$ 55 mil a US$ 100 mil numa universidade de quatro anos.
  • Existem acordos de equivalência (articulation agreements) — documentos públicos que dizem exatamente quais disciplinas do community college substituem quais disciplinas da universidade de destino. Você sabe de antemão o que vai valer.
  • Em alguns estados a vaga é garantida. Na Califórnia, o programa TAG (Transfer Admission Guarantee) assegura entrada em universidades como UC Davis e UC Irvine para quem cumprir os requisitos combinados.
  • A admissão inicial é mais acessível que a de uma universidade seletiva.

E o que pesa contra, dito com honestidade:

  • Bolsa quase não existe em community college. Na prática, é preciso poder pagar os dois primeiros anos.
  • Você precisa comprovar esse dinheiro para tirar o visto, em extrato bancário, antes de embarcar.
  • Nem toda universidade de destino é acessível por essa rota. As mais seletivas continuam admitindo pouquíssimos transferidos, venham de onde vierem.

Sobre o visto, quase nada muda: é o mesmo F-1, com o mesmo processo, desde que a instituição seja certificada pelo governo americano. Detalhes em Visto de estudante.

Transferindo de uma faculdade brasileira

É possível, acontece todo ano, e é bem mais trabalhoso do que a maior parte dos textos sobre o assunto sugere.

O que acontece com seus créditos

A universidade americana não vai ler seu histórico da UFMG e decidir sozinha o que vale. Ela vai exigir que uma empresa especializada avalie seus documentos e produza um relatório traduzindo seu curso para o sistema americano. As mais usadas são WES, ECE, IERF e SpanTran — e cada universidade aceita apenas algumas delas, então confira antes de contratar.

O que a USC, por exemplo, deixa explícito no próprio site:

  • o relatório precisa ser enviado direto pela avaliadora para a universidade, não por você;
  • o histórico precisa vir acompanhado de tradução profissional;
  • os créditos estrangeiros entram como disciplinas eletivas ou para cumprir exigências gerais do currículo — e não como equivalentes a uma disciplina específica da universidade;
  • eles também não valem como crédito de língua estrangeira;
  • instituições não reconhecidas pelo governo do país de origem não são aceitas.

A consequência prática é a que mais decepciona: mesmo quando os créditos "passam", eles tendem a virar eletiva genérica. Quem transfere depois de dois anos de faculdade no Brasil raramente economiza dois anos nos Estados Unidos — costuma economizar um ano, às vezes menos. Vale entrar nesse processo sabendo disso, e não descobrir depois.

Quanto custa a avaliação

ServiçoPreçoO que entrega
WES — Document-by-DocumentUS$ 118Equivalência do diploma, sem detalhar disciplinas
WES — Course-by-CourseUS$ 186Disciplina por disciplina, com créditos americanos e GPA na escala 4.0
ECE — GeneralUS$ 110Equivalência do diploma
ECE — Course-by-CourseUS$ 199O relatório completo, o mais pedido
ECE — Translation Waiver+ US$ 85A própria ECE traduz seus documentos
ECE — Rush+ US$ 90Resultado em 5 dias úteis

Duas observações que economizam dinheiro: o Translation Waiver da ECE, por US$ 85, costuma sair mais barato que traduzir um histórico universitário inteiro com tradutor juramentado. E vale conferir os valores no site na hora de contratar — eles sobem quase todo ano.

Quando a transferência vale a pena

Vale considerar quando:

  • você já está numa faculdade e descobriu os Estados Unidos depois — transferir custa menos tempo que recomeçar;
  • você tem notas boas na faculdade atual: o histórico universitário pesa mais que o do ensino médio nessa hora, então quem melhorou depois do vestibular é beneficiado;
  • você quer um curso que praticamente não existe no Brasil.

E pesa contra quando:

  • você depende de bolsa grande — a oferta para transferidos é bem menor;
  • você espera aproveitar todos os créditos;
  • você ainda está no ensino médio. Nesse caso, aplicar como calouro é quase sempre melhor: mais vagas, mais bolsa e um processo que existe para receber você.

Como se organizar

  • Comece cedo. Os prazos de transferência costumam cair entre fevereiro e abril, mas a avaliação de credenciais e as traduções levam semanas. Conte com dois a três meses só para os documentos.
  • Confira exigência por exigência, universidade por universidade. Quantos créditos mínimos, qual avaliadora é aceita, se há bolsa para transferido: isso muda em cada uma, e não existe regra geral.
  • Mantenha suas notas em alta onde você está. É o fator mais importante da decisão.
  • Procure alunos que já fizeram essa transferência. Muitas universidades têm comunidades de transferidos, e elas respondem em dias o que você levaria semanas para descobrir sozinho.

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