Coerência e progressão textual

O que faz um texto ter sentido: coerência com o tema e com o mundo, não contradição, e a progressão que acrescenta informação nova sem repetir nem fugir do assunto.

Autor: Lumen Edu Leitura: 12 min Atualizado em: 2026-09
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Objetivos da aula

  • Distinguir coesão de coerência.
  • Reconhecer contradição, choque com o conhecimento de mundo e fuga do tema.
  • Fazer um parágrafo avançar em vez de repetir a mesma ideia.

A diferença entre coesão e coerência

A coesão é a costura entre as frases de um texto: as palavras que retomam o que já foi dito e os conectivos que mostram como uma ideia se liga à outra. A coerência diz respeito ao sentido do texto como um todo. Um texto é coerente quando o leitor consegue entender do que ele trata e quando as informações que ele traz combinam entre si e com o que o leitor sabe do mundo.

Na maioria dos textos, as duas andam juntas. Mas é possível ter uma sem a outra, e ver os dois casos separados ajuda a entender o que cada uma faz.

1.1 Texto coeso e incoerente

Minha avó mora em Belém. Belém tem um mercado famoso, o Ver-o-Peso. Mercados de peixe têm cheiro forte. O olfato é um dos cinco sentidos.

Cada frase se prende à anterior por uma palavra: Belém, mercado, cheiro, olfato. A costura está feita. Ainda assim, se alguém perguntar do que o texto trata, não há resposta. Ele começa falando da avó e termina falando dos sentidos, e cada frase puxa um assunto diferente. Falta um tema que junte as quatro.

1.2 Texto coerente quase sem coesão

Despertador quebrado. Chuva forte. Ônibus lotado. Cheguei atrasado à prova.

Não há um único conectivo, e as três primeiras frases nem têm verbo. Mesmo assim, você entende tudo: três problemas seguidos e o atraso que eles provocaram. Quem estabelece a ligação entre as frases é o leitor, com base no que sabe sobre despertadores, chuva e ônibus. Por isso se diz que a coerência depende também de quem lê: ela é o sentido que o leitor consegue montar a partir do texto.

Na redação, você precisa das duas. A coesão ajuda o leitor a seguir o caminho; a coerência garante que o caminho leva a algum lugar.

Não contradição

Um texto coerente não afirma e nega a mesma coisa. Parece óbvio, mas a contradição é um dos problemas mais comuns em redação, porque raramente aparece de forma escancarada. Ela costuma surgir de três jeitos.

2.1 Contradição direta

O projeto não terá custo para a cidade. Na primeira fase, a prefeitura vai pagar as obras de drenagem.

Se a prefeitura paga as obras, o dinheiro sai dos cofres da cidade. As duas frases não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, e o leitor que percebe isso passa a desconfiar do texto inteiro.

2.2 Contradição criada pelo conectivo

O remédio tem poucos efeitos colaterais, portanto deve ser evitado.

Cada parte, sozinha, é aceitável. O problema está no portanto, que apresenta “deve ser evitado” como consequência de “tem poucos efeitos colaterais”. Poucos efeitos colaterais seriam uma razão para usar o remédio, e não para evitá-lo. A relação que o conectivo estabelece contradiz o conteúdo das ideias que ele liga.

2.3 Contradição entre parágrafos

Esse é o caso típico da redação escrita às pressas. A introdução defende uma tese, os parágrafos seguintes desenvolvem argumentos, e a conclusão propõe o contrário do que a introdução defendeu. Isso acontece porque o autor muda de ideia durante a escrita e não volta ao começo para conferir. Cada parágrafo, lido isoladamente, está bom; o texto inteiro não se sustenta. Antes de escrever a conclusão, releia a tese da introdução.

2.4 Exemplo resolvido

Encontre a contradição e corrija:

As redes sociais aproximam as pessoas. Hoje é possível conversar todo dia com um parente que mora em outro país. Por isso, as redes sociais só servem para isolar.

A terceira frase nega as duas primeiras, e o por isso ainda a apresenta como consequência delas. Se o autor quer mostrar que as redes têm dois lados, a relação entre as frases é de oposição, e a palavra “só” precisa sair, porque ela apaga o lado positivo que acabou de ser apresentado:

As redes sociais aproximam as pessoas. Hoje é possível conversar todo dia com um parente que mora em outro país. No entanto, o mesmo recurso pode isolar quem troca o encontro presencial pela tela.

Coerência com o mundo

O texto também precisa combinar com o que o leitor sabe sobre o mundo. Esse conhecimento inclui fatos, datas, regras sociais e o funcionamento das coisas.

Pedro nasceu em 2010 e votou pela primeira vez na eleição de 2022.

Em 2022, Pedro tinha no máximo 12 anos, e no Brasil o voto só é permitido a partir dos 16. A frase está gramaticalmente perfeita e mesmo assim é incoerente, porque descreve algo que não pode ter acontecido. O mesmo vale para os dados citados numa redação: uma informação errada sobre um fato conhecido faz o leitor desconfiar de todo o argumento.

A exceção está no gênero do texto. Numa fábula, o sapo fala; num conto de ficção científica, alguém viaja no tempo. O leitor aceita essas situações porque o próprio texto cria as regras do mundo em que a história se passa. O que torna uma ficção incoerente é quebrar as regras que ela mesma criou, como o personagem que morre no capítulo 3 e reaparece no capítulo 5 sem nenhuma explicação.

Coerência temática: fuga e tangenciamento

Todo parágrafo de um texto precisa servir ao tema. Há duas formas de falhar nisso. A fuga ao tema acontece quando o texto trata de outro assunto. O tangenciamento acontece quando o texto trata do assunto de forma ampla e deixa de lado o recorte específico que o tema pediu.

Um tema de redação costuma ter um assunto geral e um recorte. Em “Desafios do acesso à internet nas escolas públicas rurais”, o assunto geral é tecnologia na educação, e o recorte está nas outras palavras: o problema é o acesso, o lugar é a escola pública, a região é a zona rural. Um texto sobre a importância da tecnologia no mundo moderno tangencia o tema, porque fala do assunto geral e ignora o recorte. Um texto sobre violência urbana foge ao tema, porque trata de outra coisa.

Onde se erra

Na redação do Enem, a fuga total ao tema zera a nota. O tangenciamento não zera, mas derruba a pontuação de forma considerável, e é traiçoeiro porque o aluno acredita que está dentro do tema. Antes de escrever, sublinhe as palavras que formam o recorte. Depois de escrever cada parágrafo, confira se ele trata do recorte inteiro, e não só do assunto geral.

Progressão: cada frase acrescenta

Não se contradizer e manter o tema ainda não basta. O texto precisa avançar. Na progressão textual, cada frase se apoia em algo já dito, a informação dada, e acrescenta algo que o leitor ainda não sabia, a informação nova. Uma frase sem informação dada fica solta, sem ligação com o resto. Uma frase sem informação nova só repete o que o texto já disse.

5.1 Progressão linear

Nesse tipo de progressão, a informação nova de uma frase se torna o ponto de partida da frase seguinte:

O Brasil tem muitos rios. Esses rios geram energia. Essa energia abastece cidades.

dado novo O Brasil tem muitos rios Esses rios geram energia Essa energia abastece cidades
Figura 1. Progressão linear: o que cada frase traz de novo vira o ponto de partida da frase seguinte. A seta diagonal corresponde à retomada, feita por “esses rios” e “essa energia”.

Esse tipo de progressão é comum em textos que explicam processos ou encadeiam causas e efeitos, porque cada etapa leva naturalmente à seguinte.

5.2 Progressão por tema constante

Aqui o ponto de partida é sempre o mesmo, e cada frase acrescenta uma informação sobre ele:

O Cerrado ocupa boa parte do Brasil central. Abriga nascentes de rios importantes. Tem plantas adaptadas ao fogo.

O Cerrado é o assunto das três frases, e nas duas últimas ele é retomado pela omissão do sujeito. O texto avança porque cada frase traz um aspecto novo: a localização, a importância para os rios, a adaptação das plantas. Esse tipo de progressão é comum em descrições e em parágrafos que apresentam várias características de uma mesma coisa.

5.3 Circularidade: o texto que não sai do lugar

A educação é muito importante. Sem educação, um país não avança. Por isso, investir em educação é fundamental, porque a educação é essencial para o desenvolvimento.

São quatro orações e uma ideia só: a educação é importante. Cada oração traz como novidade o que a anterior já tinha dito, com outras palavras. Esse é o defeito mais comum em parágrafos de redação, e passa despercebido porque nenhuma frase, sozinha, está errada. O problema só aparece quando você se pergunta o que o leitor sabe no fim do parágrafo que não sabia no começo.

Para sair da circularidade, faça uma pergunta a cada frase escrita: por quê? como? o que acontece por causa disso? A resposta a essa pergunta é a frase seguinte.

5.4 Exemplo resolvido

Reescreva o parágrafo acima de modo que ele avance.

Comece pela afirmação e pergunte “por quê?”. A resposta dá a segunda frase. Depois pergunte “o que isso significa?”, e a resposta dá a conclusão:

A educação amplia as chances de trabalho: quem conclui o ensino médio tende a conseguir empregos mais estáveis do que quem para no fundamental. Por isso, manter o jovem na escola é também uma forma de política econômica.

Agora o parágrafo tem percurso. A primeira oração faz uma afirmação, a segunda explica como ela se realiza, e a terceira tira uma conclusão que ainda não tinha sido dita. Cada passo parte do anterior e acrescenta algo.

Três perguntas para testar um parágrafo

Antes de dar o parágrafo por pronto

  1. Ele contradiz alguma coisa, dentro dele mesmo, no resto do texto ou no mundo?
  2. Cada frase trata do tema, e do recorte do tema?
  3. Cada frase diz algo que a anterior ainda não tinha dito?

As mesmas perguntas servem para a prova de leitura. Quando uma questão pede o trecho que compromete a coerência de um texto, a resposta costuma ser uma frase que falha em uma delas.

Exercícios

  1. Leia: “Comprei um caderno novo. Cadernos têm pauta. A pauta de uma reunião define os assuntos. Os assuntos do jornal de hoje são de economia.” Por que o trecho é coeso e, ainda assim, incoerente?

  2. Leia: “Luz apagada. Porta trancada. Carro fora da garagem. A família tinha viajado.” Não há nenhum conectivo. O que permite ao leitor entender o trecho?

  3. Leia: “O parque estava vazio naquela manhã. Havia tanta gente que mal dava para andar entre as barracas.” Aponte a contradição e corrija-a sem apagar nenhuma das duas frases.

  4. Num texto ambientado no Brasil de hoje, que tipo de incoerência há em “Aos 15 anos, Júlia tirou a carteira de motorista e passou a ir de carro para a escola.”?

  5. Num conto, um gato conversa com uma menina sobre as estrelas. Isso torna o conto incoerente? Em que situação ele seria?

  6. Por que a frase “O restaurante tem a comida mais barata do bairro, por isso está sempre vazio.” causa estranheza? Reescreva-a de forma coerente.

  7. Qual das frases não faz o texto avançar? “(1) A reciclagem reduz o lixo nos aterros. (2) Ela também gera renda para catadores. (3) Reciclar diminui a quantidade de resíduos enviados aos aterros. (4) Além disso, economiza matéria-prima.”

  8. Classifique a progressão de cada trecho como linear ou por tema constante: (a) “O caju é nativo do Brasil. Sua castanha é exportada. Seu pedúnculo vira suco e doce.” (b) “O bairro ganhou uma horta comunitária. A horta passou a abastecer a escola. A escola incluiu as verduras na merenda.”

  9. O tema de uma redação é “Caminhos para reduzir o desperdício de alimentos no Brasil”. Classifique cada texto como adequado, tangenciamento ou fuga ao tema: (a) um texto sobre a importância da alimentação saudável; (b) um texto sobre o trânsito nas grandes cidades; (c) um texto sobre as causas do desperdício de comida em feiras e supermercados brasileiros e as medidas para reduzi-lo.

  10. Ordene as frases num parágrafo coerente e justifique a ordem: (A) Com isso, a fila do posto diminuiu. (B) O posto de saúde do bairro vivia lotado. (C) Para resolver o problema, a equipe passou a agendar consultas por telefone. (D) Muitos pacientes chegavam de madrugada para garantir uma senha.

  11. A introdução de uma redação diz: “O ensino a distância não substitui a escola presencial.” A conclusão diz: “Portanto, o governo deve substituir as aulas presenciais pelo ensino a distância.” Qual é o problema? Reescreva a conclusão de forma coerente com a tese.

  12. Reescreva o parágrafo para que ele avance, em vez de repetir a mesma ideia: “A violência nas escolas é um problema grave. É muito sério que exista violência dentro das escolas. Esse problema precisa ser resolvido, pois a violência escolar é algo grave.”

Ver gabarito
  1. O trecho tem coesão, porque cada frase retoma uma palavra da anterior: caderno e cadernos, pauta e pauta, assuntos e assuntos. Mas não tem tema comum. Além disso, “pauta” muda de sentido no meio do caminho: primeiro são as linhas do caderno, depois é a lista de assuntos de uma reunião. O leitor não consegue dizer do que o texto trata.

  2. O conhecimento de mundo do leitor. Luz apagada, porta trancada e carro fora da garagem são sinais de que não há ninguém em casa, e a última frase é a conclusão que esses sinais sustentam. O leitor constrói a ligação entre as frases mesmo sem nenhum conectivo.

  3. O parque não pode estar vazio e lotado ao mesmo tempo. Para manter as duas frases, basta situá-las em momentos diferentes: “O parque estava vazio naquela manhã. À tarde, porém, havia tanta gente que mal dava para andar entre as barracas.”

  4. É uma incoerência com o mundo: no Brasil, a carteira de motorista só pode ser tirada a partir dos 18 anos. Num texto passado em outro lugar ou num mundo inventado, a frase poderia ser coerente, e é por isso que o enunciado fixa o Brasil de hoje.

  5. Não torna. A ficção cria as próprias regras, e o leitor as aceita. O conto seria incoerente se quebrasse a regra que ele mesmo criou. Por exemplo: depois de conversar com o gato durante várias páginas, a menina se espanta porque ele falou, sem que o texto explique a mudança.

  6. Preço baixo costuma atrair clientes, e o por isso apresenta o restaurante vazio como consequência do preço baixo. A relação esperada é de oposição ou de concessão: “O restaurante tem a comida mais barata do bairro; mesmo assim, está sempre vazio.” Outra opção: “Embora tenha a comida mais barata do bairro, o restaurante está sempre vazio.” O por isso só se sustentaria se o texto explicasse a ligação, por exemplo, se o preço baixo fizesse os clientes desconfiarem da qualidade.

  7. A frase (3). Diminuir a quantidade de resíduos enviados aos aterros é o mesmo que reduzir o lixo nos aterros, que já foi dito na frase (1). Ela não traz nenhuma informação nova.

  8. (a) Tema constante: todas as frases partem do caju, retomado por “sua” e “seu”, e cada uma acrescenta uma informação sobre ele. (b) Linear: a horta, que é a novidade da primeira frase, vira o ponto de partida da segunda, e a escola, novidade da segunda, vira o ponto de partida da terceira.

  9. (a) Tangenciamento: o texto fala do assunto geral, alimentação, mas deixa de lado o recorte, que é o desperdício, no Brasil, e os caminhos para reduzi-lo. (b) Fuga ao tema: trata de outro assunto. (c) Adequado: fala do desperdício de alimentos no Brasil e propõe caminhos para reduzi-lo.

  10. B, D, C, A. A frase B apresenta a situação. A D detalha o que significa o posto viver lotado. A C começa com “o problema”, expressão que resume B e D, e por isso só pode vir depois das duas. A A começa com “Com isso”, que retoma a medida de C como causa da fila menor, e por isso fica no fim. Colocar D depois de C não funciona, porque pacientes chegando de madrugada contradiz uma medida que acabou de ser tomada para resolver a fila.

  11. Há uma contradição entre parágrafos: a tese diz que o ensino a distância não substitui a escola presencial, e a conclusão propõe justamente a substituição. Uma conclusão coerente seria: “Portanto, o governo deve usar o ensino a distância como complemento das aulas presenciais, e não como substituto.”

  12. As três frases dizem a mesma coisa: a violência nas escolas é grave. Uma resposta possível: “A violência nas escolas afasta alunos e professores: quem teme uma agressão falta mais e aprende menos. Por isso, enfrentá-la exige mais do que vigilância na porta. É preciso mediar conflitos e acompanhar cada caso, para que o problema não se repita.” Agora a primeira oração afirma um efeito, a segunda explica como ele acontece, e as duas últimas frases tiram dele uma proposta. Vale outra resposta, desde que cada frase acrescente algo que a anterior não disse.

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