Aplicando do Brasil
Documentos, traduções, quem assina o que na sua escola, ajuda gratuita no Brasil e o que fazer quando o formulário americano não prevê a sua realidade.
Quase todo material sobre aplicação para os Estados Unidos supõe um aluno americano, numa escola americana, com um orientador de carreira disponível na sala ao lado. Esta página é sobre a outra situação: a sua. Documento em português, escola sem counselor, banco que não emite carta em inglês, formulário que pergunta coisas que não existem aqui.
Existe ajuda gratuita, e ela é boa
O EducationUSA é a rede oficial de orientação do governo americano, e tem mais de 40 escritórios no Brasil, dentro de universidades, institutos federais e centros binacionais de idiomas — em capitais e também em cidades médias, de Rio Branco a Caxias do Sul. O atendimento é gratuito e não é propaganda de agência: é orientação.
O que os centros costumam oferecer:
- orientação individual sobre o processo de candidatura;
- palestras sobre provas, financiamento e visto;
- oficinas de redação — justamente a parte que mais assusta;
- feiras com representantes de universidades americanas;
- tradução certificada dos seus documentos escolares.
O serviço que mais economiza dinheiro, e quase ninguém conhece
Esse último item merece destaque. Muitas famílias pagam tradutor juramentado para traduzir o histórico escolar sem saber que o EducationUSA faz isso de graça — e que universidades americanas aceitam essa tradução por escrito. A University of Wisconsin–Madison aceita tradução feita pela própria escola ou por um representante do EducationUSA; a Wichita State aceita documentos certificados pelo EducationUSA e recusa tradução feita pelo próprio aluno.
Antes de contratar qualquer coisa, procure o centro mais próximo e pergunte o que ele faz.
Dois programas gratuitos com prazo anual
- Programa Oportunidades Acadêmicas (EducationUSA) — para aluno de ensino médio com bom desempenho e sem condições de pagar o processo. Cobre taxas de provas, material de estudo, transporte e hospedagem para fazer a prova, tradução de documentos e taxas de inscrição. A seleção envolve formulário, vídeo curto e entrevista em inglês. Prazo: 30 de setembro.
- Prep Program (Fundação Estudar) — preparatório gratuito, sem restrição de renda, com orientação individual, preparo para as provas, ajuda nas redações e montagem da lista de faculdades. Para quem está no penúltimo ou no último ano do ensino médio. Prazo: 1º de outubro.
Histórico escolar e tradução
A regra mais importante: tradução juramentada nem sempre é necessária, e a política varia de universidade para universidade. O que praticamente todas exigem é o conjunto abaixo:
- O histórico original, em português, emitido pela escola.
- Uma tradução — que pode ser feita pela própria escola, por um tradutor certificado ou pelo EducationUSA, conforme o que a universidade aceitar.
- A escala de notas da sua escola, explicando quanto vale cada nota e qual é a média para aprovação. Isso quase sempre é esquecido e é o que permite ao comitê ler seu histórico.
Alguns pontos práticos: os documentos costumam precisar chegar pelos canais oficiais (pela plataforma ou enviados pela escola), e não por e-mail do aluno. E quase nenhuma universidade aceita tradução feita por você mesmo, ainda que seu inglês seja ótimo.
Não invente um GPA
O GPA é a média americana, numa escala até 4.0. Não existe conversão oficial da nossa escala de 0 a 10 para ela, e cada universidade faz de um jeito: algumas calculam sozinhas a partir da escala que você informou, outras exigem um relatório pago de uma empresa especializada.
O que você faz: informa sua média na escala brasileira e anexa a escala de notas da escola. Se um formulário insistir em pedir GPA, responda com a média original e explique a escala no campo de observações. Tabelas de conversão que circulam em sites brasileiros não têm valor oficial, e errar a escala pode dar problema sério — uma universidade americana avisa explicitamente que erro nesse ponto pode levar à revogação da oferta.
Quem assina o que, quando sua escola não tem counselor
O sistema americano pressupõe um counselor: um profissional da escola que orienta o aluno na escolha da faculdade, envia o histórico, escreve uma carta e preenche um relatório sobre ele. A maioria das escolas brasileiras não tem esse cargo — e isso não impede sua candidatura.
O Common App permite que qualquer funcionário com acesso aos seus registros acadêmicos cumpra esse papel. Na prática, costuma ser o coordenador do terceiro ano, o diretor ou o orientador educacional. Essa pessoa é quem:
- envia seu histórico pela plataforma;
- preenche o School Report, um formulário sobre você e sobre a escola;
- escreve a carta de recomendação institucional;
- confirma seu pedido de isenção de taxa, quando houver.
O school profile
É um documento curto, de uma a duas páginas, em que a escola se descreve: que currículo oferece, qual a escala de notas, se calcula posição na turma, quantos alunos tem, para onde vão os formandos. Serve para o comitê americano entender o ambiente em que você estudou — e, portanto, para te avaliar dentro do seu contexto e não fora dele.
Muitas escolas brasileiras nunca fizeram um. Se for o caso da sua, ofereça-se para ajudar a montar: é do seu interesse que ele exista e esteja bem feito.
Como pedir isso à sua escola
Provavelmente você será o primeiro aluno a pedir. Facilite a vida de quem vai ajudar:
- chegue com antecedência — no mínimo seis semanas antes do prazo;
- leve por escrito o que exatamente é necessário, e de quem;
- explique que o formulário é preenchido online e que a escola recebe um convite por e-mail;
- ofereça-se para preparar um rascunho do school profile e a tradução da escala de notas;
- avise o prazo com clareza, e lembre o horário: os prazos vencem no fuso dos Estados Unidos, não no de Brasília.
Comprovando a situação financeira da família
Há dois momentos diferentes, e é comum confundi-los:
- Para pedir bolsa, na candidatura: você preenche o CSS Profile ou o ISFAA, formulários em que a família declara renda e gastos. Explicados em Bolsas e Financiamento.
- Para receber o documento do visto, depois de aceito: você comprova que tem o dinheiro do primeiro ano — a chamada certification of finances. Sem isso a universidade não emite o I-20, e sem I-20 não há visto.
Pontos práticos para família brasileira:
- Os valores vão em dólares, e o formulário pergunta qual taxa de câmbio você usou. Converta, informe a taxa e guarde a data.
- Carta do banco em papel timbrado, assinada e carimbada, costuma ser exigida quando o dinheiro é poupança da família. Vale pedir com antecedência: nem toda agência sabe emitir isso em inglês.
- Carta do empregador informando o salário anual costuma ser aceita como comprovação de renda.
- Imóvel, carro e investimento ilíquido não contam. O que se comprova é dinheiro disponível.
Essa segunda etapa só acontece depois que você for aceito, e você não a enfrenta sozinho: o international students office da universidade envia o formulário, diz exatamente quais documentos aceita e revisa o que você mandou antes de emitir o I-20. Escrever para eles perguntando "que documentos vocês aceitam como comprovação financeira para um estudante do Brasil?" é uma pergunta comum, e eles respondem em poucos dias. Não vale gastar energia com isso enquanto as candidaturas ainda estão abertas.
Programas brasileiros: o que é o quê
Três organizações aparecem sempre nessa conversa e são frequentemente mal citadas:
- Fundação Estudar — tem o Prep Program (preparatório gratuito) e o Líderes Estudar, que é bolsa em dinheiro e vale para graduação completa no exterior.
- Ismart — excelente, e todos os programas são no Brasil: bolsa em colégio particular parceiro e apoio durante a faculdade brasileira. Não é caminho para universidade no exterior.
- Instituto Ling e Fundação Lemann — as bolsas para o exterior das duas são, na prática, de pós-graduação. As bolsas de graduação da Lemann são para universidades brasileiras.
Se seu objetivo é graduação nos Estados Unidos, os caminhos que efetivamente financiam isso estão reunidos em Bolsas e Financiamento.
ENEM, vestibular e o plano B
Não encontramos nenhuma universidade americana que aceite a nota do ENEM. O sistema de lá funciona com histórico escolar, provas próprias, redações e recomendações — o ENEM não entra nessa conta. Onde a nota do ENEM vale muito, fora do Brasil, é em Portugal, tratado em Outros destinos.
Por isso a recomendação direta: faça os dois. Prestar ENEM e vestibular não atrapalha sua candidatura americana e é a diferença entre ter e não ter um plano caso ela não dê certo. O problema é de calendário — novembro concentra ENEM, prazo de candidatura antecipada, uma data de SAT e os principais vestibulares. Como organizar isso está em Calendário.